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João Batista Gomes Zeca-Gavião faz uma consulta ao pai: — Pai, o senhor lembra o meu primeiro encontro com uma onça? O professor Agenor ironiza: — Encontro com onça, Zeca? Medroso como você é, só se for com onça pintada sem hífen. — Foi encontro com uma onça de verdade, professor! Foi ou não foi, pai? — Bem... Pelo menos, é o que você conta... De uma coisa tenho certeza: foi hilário. — Não foi o Hilário, pai. Fui eu. Agenor interfere: — Seu pai está dizendo que seu encontro com a onça foi algo hilário, Zeca. Ou seja, foi engraçado. — E foi mesmo, professor. — Então conte. — Foi assim. Depois do almoço, peguei a arma de meu pai, um rifle 22, e avisei em voz alta: “Vou caçar”. Houve risos. Difícil acreditar que eu, que já conquistara a fama de medroso, entraria sozinho na mata. Falei em voz alta na esperança de que alguém me desincentivasse. Papai, em tom de deboche, ainda avisou: “Cuidado com a onça. Ela está por perto... Ainda ontem, a pintada pegou um bode aqui do vizinho”. — Até aí é verdade. Onde existe bode, onça não come outra coisa... E ela veio pegar o animal bem pertinho da casa, no terreiro. — Hilário, o vaqueiro da fazenda vizinha, ironizou: “Onça gosta é de bode, não de cabra. Pode ir caçar, Zeca. Leve o celular. Se a pintada aparecer, avise pra gente”.Agenor não acredita:— Celular? E ainda mais em fazenda? — Assim não tem graça! O que importa é a história, professor. — Está bem. Pode continuar. — Depois que entrei no mato, veio uma dorzinha de barriga. Deixei a arma encostada em uma árvore e saí à procura de um lugar mais limpo pra me aliviar. Quando estava no meio do serviço, calças arreadas até os joelhos... — Arreadas ou arriadas, Zeca? — Arre... arri... abaixadas. Quando estava com as calças abaixadas até o joelho, ouvi barulho nas folhas. Olhei e vi uma onça-pintada enorme, cabeça baixa, farejando os meus passos. Aí me lembrei das palavras de meu pai: “Onça não come animal que ela encontra já morto na selva. Ela gosta é de matar, comer o bicho ainda quentinho, ainda se bulindo”. Deitei ali mesmo... — Deitei ou deitei-me, Zeca? — Deitei-me. Então, deitei-me ali mesmo, em cima da merda, e fiquei quieto, quietinho, fingindo-me de morto. Olhos fechados, ouvia os passos da pintada: puft, puft, puft, puft. Ela começou a me cheirar. Virou-me de um lado para o outro, passou a unha no meu ouvido, tentando descobrir se eu estava vivo ou morto. Quando punha a mão no meu nariz para sentir-me a respiração, eu parava de respirar. Num dado momento, abri devagar um dos olhos... Ela estava em cima de mim. Vi que era fêmea. A pintada sentou-se em cima de mim, o traseiro apoiado nas minhas partes, encarando-me. Senti aquele traseiro quente e esforcei-me para não ficar alterado. O cheiro dela não era de todo desagradável não. Até o bafo parecia menos fétido que o folclórico “bafo de onça”. E que beleza de pele! Ela se levantou, afastou-se um pouco, ficou sentada um tempão, olhando-me. Não parecia zangada, tinha uma cara boa e lisa.Pensei em gritar, mas isso seria dar sinal de vida. Continuei quieto, fazendo-me de morto. Ela se aproximou de novo, pôs a mão sobre o meu peito... De repente, a onça começou a me lamber. A língua áspera não chegava a ferir porque ela lambia de modo suave, sem pressa. Eu fui saindo do medo e entrando em êxtase. Agora, eu tinha os dois olhos abertos. Um fogo bom animava as minhas entranhas. Só tinha uma explicação: a onça gostou de mim. Quando as lambidas ultrapassaram a região dos joelhos, comecei a soltar gemidos quase inaudíveis. E a onça de cabeça baixa, lambendo cadenciadamente. Quando ela chegou na bolsa escrotal... — Chegou na bolsa? — Quando ela chegou à bolsa escrotal, não agüentei e atraquei-me ao pescoço dela, gritando: “Oncinha, meu amor, eu te adoro!” Ela deu um salto e desapareceu na mata. Eu ainda corri atrás dela, xingando-a de ingrata e de outras coisas sem nexo.
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